Porque temos medo do parto?

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Quando gestamos um mundo de dúvidas nos atravessa. Se é menino ou menina. Se tiver saúde. Se passaremos bem na gestação. Se seremos bons pais. Se saberemos cuidar… A cada passo algumas inseguranças desaparecem e outras surgem. Um dos medos mais compartilhados entre as mulheres é o medo do parto. Algumas sentem pavor de passar 

pela dor, outras de passar por cirurgia. Ouvimos tantas histórias de horror sobre partos das nossas mães, tias, primas e avós que até mesmo uma grande cirurgia abdominal como a cesariana parece uma boa alternativa. 

Mas, será que precisa ser assim? 

De uns tempos pra cá começaram a pipocar nas redes sociais relatos de partos que nada tem haver com o que acostumamos ouvir ou ver na televisão. São partos com mulheres sorrindo, lidando com a dor, rodeadas de cuidados, com a presença de pessoas amadas, esposo, comadre e filhos mais velhos. 

O que mudou? 

Os relatos traumáticos do passado, somados a complicações no parto e o aumento exorbitante nas cirurgias cesarianas, levantou o questionamento de mulheres e profissionais. 

O que há de errado com os partos? 

O mais intrigante é que, desde o surgimento dos hospitais no Brasil e a migração dos partos das casas das mulheres para o hospital, ao contrário do que se esperava, as complicações aumentavam. Mas por quê? 

No final da Segunda Guerra Mundial a maioria dos partos passou a ser atendida em hospitais por médicos, deixando de ser um evento familiar, acompanhado por parteiras tradicionais. Os métodos para atender mulheres em trabalho de parto eram experimentados pelos médicos e compartilhados nas faculdades. No entanto, não haviam pesquisas de qualidade sobre os procedimentos experimentados. A partir da década de 80 os questionamentos de profissionais e mulheres deram início a um movimento social hoje conhecido como Humanização do Parto. 

Pesquisas foram realizadas comprovando que certos procedimentos além de não trazer benefícios, ainda traumatizavam as mulheres. Entre eles o famoso “pic”, a episiotomia, um corte nos músculos da vagina na hora da saída do bebê. Até hoje não há nenhuma pesquisa que comprove sua eficiência e benefícios para as mulheres. A manobra de Kristeller (empurrar o fundo da barriga com o antebraço da enfermeira para a saída do bebê) também se comprovou ser uma manobra violenta e prejudicial que não trazia benefícios às mulheres. Além desses, o uso rotineiro de ocitocina (hormônio que aumenta contrações uterinas), a lavagem intestinal, a raspagem dos pelos, a proibição de acompanhantes, a obrigação de manter a mulher deitada de barriga para cima, com pernas amarradas e mandá-la fazer força, foram procedimento que eram rotina nos partos e os estudos novo recomendaram que sejam abolidos ou usados com muito critério em casos específicos. Alguns desses procedimentos, somados a maus tratos às mulheres, como frases ofensivas e negligências, hoje são chamados de Violência Obstétrica. Em Santa Catarina, temos a LEI Nº 17.097, DE 17 DE JANEIRO DE 2017 que define e informa sobre isso. 

E como uma mulher pode alcançar um parto realizador, que lhe traga lembranças boas de um dia especial?

Hoje ainda, infelizmente, essas novas práticas recomendadas pela OMS desde 1996 não são rotina nos hospitais brasileiros. Hoje encontramos apenas alguns profissionais mais sensíveis e atualizados atendendo no modelo do parto humanizado. 

Para encontrá-los a mulher precisa se preparar para o parto estudando as boas práticas durante a gestação, se possível, contratar uma doula – mulher que ampara e orienta gestação, parto e puerpério – , ler relatos, visitar hospitais da região e perguntar, questionar, ler sobre parto, sobre as fases, os sinais e sintomas, além de praticar exercícios, se alimentar bem, ter um bom acompanhamento de pré-natal. Outro ponto importante é reportar à ouvidoria dos hospitais e secretarias municipais de saúde sempre que passar por alguma violência obstétrica, pois sem receber as queixas e relatos as instituições não veem motivos para mudar. 

Se você, mulher, está gestando ou se preparando para gestar, inclua o planejamento do parto entre os itens mais importantes da sua gravidez. Ele é o início da sua vida como mãe, um grande e belo ritual de passagem oferecido pela natureza. Vivê-lo com prazer, cuidado, amorosidade é a chegada mais sonhada para um novo ser nesse mundo. Será uma história que ele vai ouvir por toda a vida e que vai marcar a vida dele como ser humano nessa Terra. 

Boa gestação e um lindo parto pra você! Conte comigo sempre! 

Francielle Silvano

Francielle Silvano

Mestre em Gestão de Políticas Públicas Fisioterapeuta com Formação em Uroginecologia e Sexualidade Terapeuta Corporal Reichiana Doula

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