Mical era a filha mais nova do rei Saul e alguns estudiosos dizem que seu nome é uma forma abreviada de Micael, que significa “quem é como Deus?” Mulher de emoções fortes, incapaz de controlar as circunstâncias importantes de sua vida. Separada à força de dois maridos, perdeu o pai e os irmãos brutalmente atacados por inimigos. Embora por pouco tempo, amou apaixonadamente a Davi. Na verdade, não era, porém, a primeira filha de Saul a ser oferecida a Davi. Para cumprir a promessa de que daria sua filha ao homem que matasse o gigante Golias (1Sm 17.25), Saul primeiro ofereceu a Davi a mais velha, Merabe, sob a condição de que continuasse a lutar contra os inimigos do rei.
No entanto, Saul tinha a esperança de que os filisteus matassem Davi, livrando-o assim de alguém que ele começava a ver como um rival perigoso (1Sm 18.17). Quando Davi declarou-se indigno de casar com a filha do rei, Saul não perdeu tempo em dar Merabe para outro homem (1Sm 18.19,19). Posteriormente, o rei soube do amor de Mical por Davi e viu isso como uma segunda oportunidade para preparar uma armadilha ao seu suposto rival (1Sm 18.20,21). Desta vez, o rei exigiu um dote exorbitante, estipulado em vidas humanas. O sucesso de Davi, ao pagar o dobro do preço estabelecido, além da contínua afeição que Mical tinha por ele, confirmaram as suspeitas de Saul de que “o Senhor era com Davi”. Por isso, aumentou seu medo e sua animosidade para com ele.
Mical, por duas vezes, colocou-se em uma janela para observar Davi. Na primeira cena, as Escrituras a descreve como esposa dele e, na segunda, como filha de Saul. A atitude de Mical é tão diferente neste segundo momento que até gera perplexidade. O que teria mudado no coração de Mical nesses anos de intervalo? Talvez ela tenha esperado que sua separação de Davi fosse por pouco tempo, seu idealismo forjando um final feliz para aquele amor de conto de fadas. É possível que acreditasse que Davi encontraria um meio de protegê-la da ira do pai. Teria ficado chocada quando a vida real entrou em ação, e o pai castigou-a, fazendo com que se casasse com outro homem? Sua amargura cresceu com a longa ausência de Davi? Finalmente, entendia-se bem com o novo marido só para ser arrancada dele, quando Davi exigiu sua volta depois da morte de Saul?
De acordo com alguns escritores, a amargura de Mical por certo se transformou em raiva quando compreendeu que sempre fora um joguete nas mãos de outra pessoa, uma simples mulher manipulada por homens poderosos. Seu pai fez uso dela, prometendo-a para Davi na esperança de que viesse a ser um laço para ele. Finalmente, um de seus irmãos a devolveu a Davi depois da morte de Saul, legitimando mais o direito de Davi ao trono. Sendo princesa e, mais tarde, rainha, na verdade não passava de uma escrava.
Quando Davi levou a arca da aliança para Jerusalém, depois de ter estado nas mãos dos filisteus durante vários anos e depois de uma tentativa funesta de movê-la, fez isso com profunda reverência. O desprezo de Mical pelo marido Davi revela sua falta de verdadeira dedicação. Ela preferia manter-se como uma espectadora crítica em vez de uma verdadeira adoradora de Deus. Antes de alguém colocar a aparência, a tradição ou a forma acima de um desejo sincero de adorar ao nosso Deus e Salvador, seria melhor ter cuidado e ler as palavras de Deus ao profeta Miqueias, tão reais para nós hoje como foram para os israelitas na época do profeta (Miqueias 6.6-8).
Apesar de Mical estar longe de ter sido a companheira ideal de Davi, certamente contribuiu para a realização dos propósitos de Deus ao obedecer a um dos princípios do Senhor para o casamento: a mulher deve deixar pai e mãe para unir-se a seu marido (Gn 2.24). A vida de Davi foi poupada porque Mical o ajudou a fugir dos mensageiros de seu pai. Em vez de ser um “laço” para Davi, conforme o pai esperava, Mical foi muito útil para salvar a vida dele. A lealdade ao marido deve ser uma das prerrogativas imprescindíveis no casamento.