Ana no hebraico significa graça. Era casada com Elcana, um zufita (descendente de Coate, filho de Levi), e viviam em Ramataim-Zofim, na região montanhosa de Efraim (1Sm 1.1). Todos os anos faziam uma viagem de 24 quilômetros de Ramá a Siló, a fim de adorar no tabernáculo. Alguns fatos no casamento deles, não muito agradáveis, eram como fios escuros de sofrimentos tecidos na vida de Ana. Ela dividia seu marido com outra mulher. O marido de Ana tinha duas esposas. O nome de Ana é mencionado em primeiro lugar, indicando que, provavelmente, ela era a primeira esposa de Elcana e que, mais tarde, foi incluída outra mulher na família.
Ana não tinha filhos. Ela não fora abençoada com o casamento feliz nem com a família pela qual ela tanto esperava. Em vez das risadas e da algazarra de criança, no lar de Ana talvez se ouvissem tristes soluços de choro contido. A Bíblia menciona simplesmente que “o Senhor lhe havia cerrado a madre.” E, por isso, Ana era hostilizada pela outra mulher de seu marido. Ofensas e insultos eram dirigidos a Ana. Penina, a segunda mulher de Elcana e rival de Ana, “a provocava excessivamente para a irritar”.
Mas, na alma de Ana, entrelaçado ao fio escuro do sofrimento, achava-se o magnífico fio dourado da reverência a Deus. A vida de Ana era repleta não só de problemas, mas também de fervorosa adoração. Em determinado dia do ano, Ana caminhava ao lado do marido até a casa do Senhor para adorá-lo e oferecer sacrifícios a Ele. Ana estava passando por muitas aflições. Dividia seu marido com a segunda mulher dele; não tinha filhos, e sua rival a provocava excessivamente. As lágrimas passaram a ser seu alimento. Ana chorava e não conseguia comer. Com amargura na alma e angústia no coração, seu ânimo se abateu. Qualquer pessoa em seu lugar teria sucumbido ou explodido! Ana, porém, orou. Sua alma talvez estivesse sombria, mas sua fé era radiante no momento em que se ajoelhou e entregou em oração as mágoas e decepções nas mãos do Senhor.
Ana ficou muito tempo no tabernáculo chorando e orando. Seus lábios moviam-se sem um som sequer, enquanto seu coração derramava diante de Deus o sofrimento que sentia. “Se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha” (1Sm 1.11).
É interessante observar que o sacerdote Eli estava tão acostumado com as pessoas que iam a Siló comemorar as festas, comendo e bebendo mais do que deviam, que, ao observar Ana de sua cadeira junto ao batente da porta, ficou imaginando por que os ombros dela sacudiam, os lábios moviam-se sem pronunciar um som. Devia estar embriagada, concluiu. E interrompeu, então, sua oração silenciosa com uma repreensão: – “Até quando estarás tu embriagada? Aparta de ti esse vinho!” Ele não contava com a resposta que ouviu: – “Não, senhor meu! – defendeu-se Ana. – Eu sou mulher atribulada de espírito; não bebi nem vinho nem bebida forte; porém, venho derramando a minha alma perante o Senhor.” Orando em meio às lágrimas, tão perturbada que Eli pensou que estivesse bêbada, Ana expressa a experiência agonizante da esterilidade para todas as mulheres através das eras. O anseio profundo e insatisfeito de ter filhos, a dor de observar outras dar à luz um filho após outro, a angústia de ver uma mãe beijar o rosto do filho – Ana provou tudo isso.
A infertilidade não resultava apenas em um sofrimento pessoal desgastante, como também na reprovação do marido, na censura da família e na rejeição da sociedade. Os maridos esperavam que as esposas produzissem muitos filhos para ajudá-lo no sustento da família. O círculo familiar mais amplo da mulher e também o do marido esperavam que ela continuasse a linhagem familiar e a consideravam alguém que não havia cumprido sua responsabilidade quando não produzia filhos. Os círculos sociais das jovens em idade fértil, por sua própria natureza, incluíam muitas outras jovens mulheres que estavam, em geral, produzindo um filho após outro. Sua fertilidade era uma censura à infertilidade da mulher estéril cada vez que ela ia ao mercado, ao poço ou a um evento social da comunidade. O sofrimento de Ana fez com que buscasse a ajuda do Único verdadeiramente capaz de atendê-la.
Quando Deus encontrou-se com Ana no templo de Siló, Ele não só respondeu à sua oração por um filho, como também a seu pedido para consolá-la em sua tristeza. Ele a confortou em seu desapontamento e deu-lhe forças para enfrentar a situação. As Escrituras não dizem se ela partiu certa de que conceberia um filho, mas torna claro que foi embora consolada: “E o seu semblante já não era triste” (1Sm 1.18). O que o amor e o cuidado de seu marido, Elcana, não puderam conseguir Deus realizou prontamente.
A lição que fica é que Deus está disposto a vir até nós, como fez com Ana. Qualquer que seja a nossa aflição, a situação difícil que enfrentamos, Ele está disposto a se manifestar – mais do que isso -, está desejoso de satisfazer nossas necessidades e de dar-nos a sua graça e consolo. Nenhuma outra pessoa – nem marido, nem amigos íntimos, nem pais, nem filhos – pode oferecer-nos o alívio, apoio e encorajamento que o nosso Deus tem à nossa espera.
E Abraham Kuyper conclui: “O pedido de Ana foi atendido. O Senhor deu-lhe Samuel. Naturalmente, nem toda mãe está disposta a dar seu filho a Deus no momento do nascimento. Por meio de Ana, porém, esse pensamento passa de Deus para toda mãe cristã. Como Ana, elas devem reconhecer que Deus é quem dá filhos. Quando esse reconhecimento é feito, as mães ficam mais dispostas a dedicar seus filhos ao Senhor que os criou.”